
Como uma galeria nasce? E como ela cresce?
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Perguntas que muitas vezes não fazemos, pois as galerias parecem que sempre estiveram por ali, ou o nosso interesse está nas obras, não no caminho que elas fizeram para chegar até nós.
A visita à galeria Carmo Johnson Projects foi diferente por isso. O mercado de arte não é só sobre compra e venda de obras. É um organismo vivo, que envolve questões muito mais profundas que merecem ser conhecidas.
Carmo nos recebeu e contou um pouco mais sobre isso. Sua trajetória na arte, a origem da galeria a partir de uma exposição no MASP, como encontra os artistas e o mais importante: o propósito por trás de cada escolha.
O mercado de arte primário se coloca como protagonista: artistas contemporâneos, produzindo e criando novas formas de ver a vida. Carmo, com seus olhos de onça, os vê de longe. Chega perto e nos apresenta mundos tão diversos e incríveis que é impossível não notálos, ou esquecê-los depois de vistos.
Escondida num bairro tranquilo de São Paulo, de São Paulo, a galeria guarda um acervo potente e muito diferente do que estamos acostumados a ver: artistas indígenas, algumas mulheres com produções tardias, gente do Brasil todo. E quando falo em Brasil, é um território vasto.
O mais interessante é o que chega a nós. Não são obras óbvias, e também belíssimas. Saem do lugar comum da estética clássica europeia e contam jornadas do nosso solo, nossas florestas, nossa gente. Trago algumas (não todas) para criar uma curiosidade maior. A galeria está aberta e as histórias estão lá.
Belony Ferreira (Santo Antônio da Patrulha, RS, 1935) tinha 53 anos quando ingressou no em um curso de “Arte para a Terceira Idade”. Agricultora, nascida e crescida em meio ao cultivo de cana-de-açúcar, encontrou na terra o protagonismo de seu trabalho, que não é ingênuo tampouco simples. Suas obras trazem as marcas da sua história.
Kássia Borges Karajá (Goiânia, GO, 1962) mostra seu conhecimento da cerâmica tradicional Karajá em totens, onde traz sua pesquisa e a força do povo.
Kaya Agari (Cuiabá, MT, 1986) parte da Kywenu, a pintura corporal do povo Kurâ-Bakairi ensinada pelos anciãos, com padrões distintos para mulheres, homens e crianças. Ela leva esses grafismos para painéis de cores e elementos concretos.
Nara Guichon (Santa Maria, RS, 1955) usa redes de pesca descartadas, conhecidas como redesfantasma, recolhidas do mar e transformadas em obras tridimensionais que denunciam a degradação ambiental. Com esse gesto, Guichon costura novas formas de criar, nos trazendo à luz o resultado da nossa própria imprudência ambiental.
O Coletivo Kókir é formado pelos artistas Tadeu dos Santos Kaingang e Sheilla Souza, que apresenta em suas criações questões relacionadas às culturas indígenas. Começando pelo nome: Kókir significa fome na língua Kaingang. Muito se fala sobre território, mas não aprofundamos o questionamento sobre o impacto de interferir na vida dos povos originários.
Deixei por último o começo. Foi com o MAHKU que Carmo começou a pensar a galeria, e foi por eles que a conheci, na 60ª Bienal de Veneza, em 2024. A obra apresentada na fachada do Pavilhão Principal, com cerca de 700m², retratou o mito de Kapewë Pukeni, o jacaré serviu de ponte para a travessia e separação dos povos e continentes, remetendo aos conhecimentos tradicionais e às visões dos rituais com ayahuasca.
Criado em 2012, o MAHKU (Movimento de Artistas Huni Kuin) é um coletivo de artistas do povo indígena Huni Kuin, habitantes da região oeste da Amazônia no estado do Acre que, por milhares de anos, tiveram sua vida e sua cultura definidas por relações com o ecossistema que os cerca. A comercialização da borracha no final do século XIX iniciou um processo de deslocamento, apagamento e exploração sistemática das terras, que continua até hoje.
Sua resistência e a defesa da floresta amazônica estão intimamente ligadas à preservação das tradições culturais, nas quais a arte, a música e os cantos coletivos desempenham um papel essencial. A pintura, a principal produção artística do MAHKU, nasceu da necessidade de reviver conhecimentos coletivos que estavam à beira da desaparição.
Eles trazem nas cores, nos símbolos, nos animais e nas pessoas, as histórias e mitos que não podem ser apagados. E por que vender isso? Simples e assustador: eles “vendem tela para comprar terra”.
Uma aula de história, pela arte. Mais uma vez, obrigada, Carmo, por abrir as portas da sua casa e nos mostrar nosso país.


















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