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Bienal de Arquitetura Brasileira 2026 - Projeto de Gabriel Rosa
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Loft da Escritora - Carolina Maria de Jesus
Ao eleger Carolina Maria de Jesus como conceito central para um projeto da Bienal, a intenção nunca foi ilustrar sua obra. O gesto é outro. É traduzir sua escrita em experiência, transformar silêncio em forma e criar um espaço que sustente aquilo que suas palavras sempre fizeram: existir com verdade.
Carolina escreveu a partir da margem, mas nunca foi periférica em pensamento. Sua escrita é direta, cotidiana, atravessada por observação, dor, lucidez e dignidade. Ela não romantiza a escassez, tampouco se coloca como vítima. Ela registra. E, ao registrar, constrói consciência.
A importância de Carolina Maria de Jesus
Carolina Maria de Jesus ocupa um lugar fundamental na história cultural brasileira. Mulher negra, periférica e autodidata, ela rompeu com os códigos tradicionais da literatura ao narrar a própria vida com clareza e força. Quarto de Despejo não é apenas um livro é um testemunho. Um retrato do Brasil visto de dentro, por quem viveu aquilo que muitos preferem não enxergar.
Sua escrita não pede autorização. Ela afirma. Observa o cotidiano, nomeia desigualdades e revela a cidade a partir de um ponto de vista raramente legitimado. Ler Carolina hoje é perceber o quanto suas palavras continuam atuais. O tempo passou, mas as estruturas que ela denunciou ainda permanecem.
Trazer Carolina para o centro de um projeto contemporâneo é um gesto consciente. É reconhecer que sua obra não pertence à margem da história, mas ao centro do pensamento brasileiro. É entender que memória, dignidade e identidade também constroem espaço.
Carolina escreve com o corpo. Com o corpo que caminha pela cidade, observa, coleta, sobrevive. Sua relação com o espaço urbano é dura, mas também extremamente lúcida. Ela conhece a cidade por dentro.
Essa dimensão corporal orienta o projeto. O percurso alterna momentos de compressão e respiro, densidade e vazio. Essas mudanças refletem a experiência urbana narrada por Carolina: uma cidade que promete, mas nega; que se mostra, mas exclui.
A ausência também constrói narrativa. O que falta é tão importante quanto o que está presente. Assim como em seus textos, o silêncio, o intervalo e o não dito carregam sentido.
Um projeto de posicionamento
Este projeto entende arquitetura como escolha. Como posicionamento. Trazer Carolina Maria de Jesus para a Bienal é um gesto político, cultural e necessário. É afirmar que o pensamento brasileiro precisa ouvir, valorizar e sustentar as vozes que sempre estiveram aqui, mesmo quando foram ignoradas.
Não se trata de nostalgia. Carolina fala do agora. Sua obra atravessa o tempo porque fala de estrutura, de desigualdade, de humanidade. Ela nos obriga a olhar para a cidade, para o outro e para nós mesmos.
Este projeto nasce da escuta. Um espaço construído a partir da palavra, da experiência e da dignidade. Ao traduzir a obra de Carolina Maria de Jesus em arquitetura, a intenção é criar um ambiente que sustente presença, reflexão e consciência.
Mais do que uma homenagem, este é um reconhecimento. Carolina Maria de Jesus não é exceção. Ela é base.














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